Primeiro Reinado

Instalação do Senado no Primeiro Reinado

D.Pedro I, Pintura de Simplício Rodrigues de Sá - Museu Imperial de Petrópolis

A transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, em razão da invasão de Portugal por tropas francesas e espanholas, marcou profundamente a história do Brasil, única ex-colônia na América onde o processo de independência se desenrolou sob a liderança de um membro da família real da metrópole. A chegada de mais de 400 portugueses, entre nobres, servos e empregados, causou uma profunda crise habitacional no Rio de Janeiro, obrigando o desalojamento de moradores que cederam espaço para os membros da corte. O próprio vice-rei do Brasil, o conde dos Arcos, mudou-se para o Campo de Santana e entregou o prédio sede de seu governo para alojar a rainha D. Maria I, então mentalmente inválida, o príncipe regente D. João e sua família.

Embarque da Família Real em Portugal. Autor desconhecido, 
Museu Histórico e Diplomático do Itamaraty.
Chegada da Família Real na Bahia. Pintura de Cândido Portinari de 1952. Acervo Projeto Portinari.

A presença da Corte alterou o status da antiga colônia, determinando rapidamente o fim das práticas comerciais coloniais pela abertura dos portos em 1808 e, depois da derrota de Napoleão, a própria elevação do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves em dezembro de 1815. 

A insatisfação dos portugueses com a ausência de D. João, coroado após a morte de D. Maria no início de 1816, acabou provocando a Revolução Liberal do Porto, em agosto de 1820, obrigando o retorno do rei no ano seguinte. D. João, entretanto, deixou no Brasil seu filho Pedro como príncipe regente, enquanto negociava com os revoltosos portugueses.

A Constituição portuguesa elaborada pelas Cortes do Porto, mesmo com a participação de deputados do Reino do Brasil, projetava o retorno do status colonial, forçando a elite brasileira a reunir-se em torno do príncipe regente, processo que desaguou na proclamação da independência brasileira. 

Decreto que nomeia Pedro como 
Príncipe Regente do Brasil
Projeto Constitucional de 1823 foi apelidado de “Constituição da Mandioca” e trazia temas polêmicos, ao lado de avanços liberais.

Uma assembleia constituinte, convocada antes mesmo de setembro de 1822, iniciou seus trabalhos no ano seguinte, elaborando um projeto de Constituição que já propunha um Legislativo — chamado Assembleia Geral — composto por duas instituições, que viriam a se tornar a Câmara e o Senado. A discussão estava em andamento no início de setembro de 1823. Foi a primeira experiência legislativa de nível nacional no Brasil.

Havia pontos polêmicos, como a abolição da escravidão, sugerida pelo gabinete de José Bonifácio, o que desagradava traficantes e proprietários de escravizados, que se colocaram contra o Patriarca. A proposta de limitar os poderes do novo imperador e submetê-lo ao controle da Assembleia Geral, que também constava do projeto constitucional, gerou forte reação de D. Pedro I, que, num golpe de força, fechou a constituinte em 12 de novembro de 1823, e encarregou um grupo de sua confiança para escrever um texto constitucional, imposto no início do ano seguinte. Nele, predominava o Poder Moderador, exclusivo do imperador, que se sobrepunha ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário, misturando elementos liberais, típicos daquele período, com elementos absolutistas, advindos da tradicional monarquia portuguesa. 

A Constituição outorgada de 1824 foi resultado de um golpe de força do Imperador Pedro I contra a assembleia constituinte.

O golpe de força gerou a reação de algumas províncias, capitaneadas por Pernambuco, no movimento constitucionalista e federalista autodenominado Conferência do Equador. A movimentação militar ordenada pelo imperador acabou por suprimir o movimento, dissolvido com extrema violência e condenação à morte da maior parte das lideranças.

Palácio Conde dos Arcos, primeira sede do Senado (foto Reprodução/Memória Viva).
[Pequena história dos palácios do Senado Federal]

Pressionado para a instalação do Legislativo, D. Pedro terminou por adquirir a antiga propriedade do Conde dos Arcos no Campo de Santana, reformada e ampliada em 1819 pela elite baiana em agradecimento ao Conde pelos serviços prestados enquanto foi governador da província da Bahia. 

Foi no Solar do Conde dos Arcos que se instalou a Câmara dos Senadores, posteriormente denominada Senado Imperial, que passou a funcionar efetivamente em 1826.

Segundo a Constituição de 1824, a Câmara dos Senadores seria formada por brasileiros com pelo menos 40 anos, de saber, capacidade e virtudes, com preferência para aqueles que tivessem servido à Pátria. O cargo seria mantido pelo titular até a morte ou renúncia. A escolha se daria pelo Imperador, a partir de lista tríplice elaborada pelos eleitores provinciais. Um requisito fundamental era a renda anual de 800 mil-réis, oriunda de bens, indústria, comércio e empregos. O número de senadores de cada província correspondia a metade do número de deputados, que era proporcional à sua população.

[​Publicação Constituição de 1824. Coleção 200 anos de Constitucionalismo Brasileiro. V1.]

Capa da Constituição Brasileira de 1824. (foto: Constituição do Império do Brasil. Arquivo Nacional. Fundo Constituições e Emendas Constitucionais. BR_RJANRIO_DK_C24)
Princesa Isabel, a regente que governou além do machismo. 
Agência Senado.

A primeira legislatura foi composta de 50 senadores. Além desses, estava previsto que os príncipes do Império também teriam assento no Senado a partir de suas maioridades. Essa previsão faria com que a princesa Isabel fosse a primeira senadora do Brasil. A maioria era de mineiros e baianos. De profissão, a maioria era de juízes, militares e padres. Muitos já tinham uma idade bastante avançada e faleceram nos anos seguintes.

[Princesa Isabel, a regente que governou além do machismo. Agência Senado.]

No dia 29 de abril de 1826, ocorreu a primeira sessão preparatória da Câmara dos Senadores, responsável por definir as diplomações dos futuros senadores e o rito de recepção imperial. Em 6 de maio, finalmente, a nova Casa de Leis começaria sua atividade efetiva

No ano seguinte, a Casa apresentou alguns projetos importantes relativos à naturalização de estrangeiros. Outra preocupação legislativa foi a criação de leis referentes à educação e à imprensa, aprovadas pela Assembleia Geral em 1827 e em 1830, respectivamente.