Participação feminina

Nordestinidade. Óleo sobre tela. Francisco Wagner (@fcowagnernepomuceno). 2024. Obra integrante da Exposição “Duzentos Anos da Confederação do Equador: um tributo a Bárbara de Alencar”, iniciativa da Fundação SINTAF e do Sindicato dos Fazendários do Ceará.

Na Independência, há vários indícios da significativa participação feminina, como mostra o caso de Bárbara de Alencar. Todavia, poucas evidências textuais de autoria dessas mulheres chegaram até nós. Alguns manifestos de mulheres vieram a ser publicados na fase compreendida entre o Grito do Ipiranga e a Confederação do Equador. O jornal Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco transcreveu uma carta das “matronas liberais” da vila de Areia, na região do Brejo Paraibano, datada de 12 de junho de 1823. No total, 100 mulheres assinam a carta publicada. Elas louvam o serviço prestado por Cipriano Barato com a divulgação das doutrinas constitucionais para alertar aqueles que foram “criados com o leite do velho governo, cerram os ouvidos à mais liberal Doutrina e mais justa e Santa das Causas”. As mulheres de Areia dispunham-se a fazer “a mais cruenta guerra aos acérrimos Sectários do nefando Despotismo”.

Em Goiana e seus arredores, houve muita mobilização popular na Independência. O último governador régio de Pernambuco registrou a presença maciça de gente das camadas populares entre os apoiadores da junta de governo que se formou naquela povoação. Essa mobilização continuaria no contexto da Confederação do Equador. Em 10 de fevereiro de 1824, as mulheres de Goiana produziram uma proclamação destinada às “Queridas compatriotas Cachoeirenses”, da Bahia, alertando para o erro que cometiam naquela província ao manterem os laços com o Imperador que, com o golpe de Estado de novembro de 1823, “tirou finalmente a máscara hipócrita com que se disfarçava”. A proclamação também critica as nomeações feitas pelo imperador para os governos das províncias: “Os homens que tem escolhido para presidentes das províncias tais como, por exemplo, nessa [na Bahia] Francisco Vicente Viana, e nesta [Pernambuco] o morgado do Cabo, são publicamente reconhecidos por servis estúpidos, perdidos de reputação e de dívidas, ou aristocratas ambiciosos e egoístas mercenários, que só aspiram pela sua cega submissão às ordens da corte, a restabelecer suas estragadas fortunas, e obter títulos, foros e comendas”. Finalmente as mulheres de Goiana afirmam que a discussão política não é matéria estranha ao sexo feminino, uma vez que as mulheres “tem produzido atos de heroísmo tais que os homens o não podem apresentar mais sublimes”.

Em 1878, Henrique Capitolino incluiu em seu compêndio Pernambucana Ilustres, o relato sobre Clara Maria do Café Carvalhista, cuja memória conservou-se entre os que testemunharam os fatos e repassaram as narrativas às gerações mais jovens. Na memória da Confederação, Clara sobreviveu como uma “carvalhista”, ou seja, uma mulher que teve um protagonismo destacado em favor de Manuel de Carvalho, como era mais conhecido o presidente da Confederação do Equador. Segundo o registro de Capitolino, Clara atuou com coragem e ousadia nas mais importantes batalhas da Confederação em Pernambuco, as batalhas da Ponte dos Carvalhos, Afogados e Boa Vista.

Uma mulher que se destacou nas lutas libertárias no Ceará foi Bárbara de Alencar, foi uma renomada líder política no Crato (CE), com participação ativa nos movimentos de 1817 e 1824. Tornou-se a primeira presa política de nossa história em 1817, quando liderou seus filhos, que depois participaram do processo de Independência. Bárbara foi precursora na luta feminina pela cidadania, bandeira defendida posteriormente por Isabel Dillon, Leolinda Daltro, Mietta Santiago, Bertha Lutz, Celina Guimarães, Alzira Soriano, entre tantas outras. Até hoje, entretanto, a representação feminina nas instâncias de poder ainda é bem menor que a dos homens.

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