Outras Províncias
Vista da Bahia. Gravura aquarelada. Friedrich Salathé. 1826. Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Domínio público.
Os republicanos de 1824 enviaram cartas e emissários para outras províncias em busca de mais adesões para à causa, pois a pretensão deles era levar a revolução republicana para todo o Brasil. Isso não era um sonho nem um absurdo, basta olhar para o contexto do resto das Américas. O império era uma exceção, a regra era a república, que se mostrara extremamente bem-sucedida nos Estados Unidos, inclusive na manutenção da unidade territorial. Apesar disso, entre a Revolução do Porto (agosto de 1820) e o fechamento da Constituinte (novembro de 1823), houve muitos atritos e até combates intensos entre as diferentes facções das elites locais que disputavam os governos em suas respectivas províncias durante o período das juntas de governo. Antes de se tornar imperador, Dom Pedro procurou interferir nessas disputas, enviando agentes em busca de aliados nas províncias. Depois da Independência, o imperador passou a contar com o erário régio e até a possibilidade de contrair empréstimos estrangeiros o que lhe permitiu apoiar aqueles que defendiam a monarquia, inclusive enviando uma esquadra ao Maranhão, e ameaçando fazer o mesmo no Pará. Assim, quando a Confederação do Equador foi decretada, as facções aliadas ao monarca estavam muito fortalecidas militarmente e conseguiram esmagar os adeptos do republicanismo.
Maranhão
A adesão da província do Maranhão ao Império do Brasil só ocorreu em 28 de julho de 1823, após encarniçada luta entre uma facção das elites locais que pretendia manter os vínculos com Lisboa e uma outra facção que preferia vincular a província ao Rio de Janeiro. Graças em boa parte ao regime de ventos e correntes marítimas, o Maranhão sempre teve relações mais diretas com Portugal do que com as outras praças da América portuguesa. Sob o ponto de vista puramente econômico a ligação com a corte no Rio de Janeiro era bem mais frágil nessa época. A costura, portanto, teria que ser tecida no terreno da política e da guerra. As derrotas das tropas portuguesas e a chegada da esquadra comandada pelo mercenário britânico Cochrane selaram a adesão ao Brasil.
Neste contexto, Miguel dos Santos Freire e Bruce assumiu o governo do Maranhão, regendo a província entre agosto de 1823 e dezembro de 1824. Bruce pôs em prática medidas que afetaram os portugueses no Maranhão e foi acusado de republicanismo pelos seus opositores. A postura de Bruce em relação à Confederação é difícil de dimensionar. Ao passo que seus acusadores alegavam que ele mantinha laços de amizade com Manuel de Carvalho e que tentara distribuir impressos republicanos no Maranhão, o próprio Bruce alegou em sua defesa que buscou impedir a disseminação das ideias revolucionárias. Suas manifestações abertamente contrárias ao movimento só apareceram quando a insurgência já havia sido praticamente derrotada. Ainda assim, Bruce foi preso numa segunda investida de Cochrane contra São Luís e levado ao Rio de Janeiro, mas acabou absolvido das acusações em 1826.
Pará
O Pará foi a última província a aderir ao Império do Brasil, em 15 de agosto de 1823. Da mesma forma que o Maranhão, as ligações do Pará com o restante da América portuguesa eram dificultadas pelas condições adversas de navegação. Após a chegada a Belém dos emissários enviados de Pernambuco, um movimento rebelde tomou o poder em 30 de abril de 1824. De viés republicano, a junta revolucionária era composta por Antônio Correa de Lacerda, Pedro Rodrigues Henriques, cônego Joaquim Pedro de Moraes Bittencourt, major João Roberto Ayres Carneiro, coronel Bento Garcia Haro Farinha e João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha. A junta revolucionária estava decidida a aderir a Pernambuco, o que comprova que, mesmo antes da proclamação de 2 de julho de 1824, já havia planos concretos para a ruptura republicana no Recife. Entretanto, poucas horas depois da posse da junta revolucionária paraense, chegou a Belém o presidente da província nomeado por Pedro I, o coronel José de Araújo Roso. Após negociações com as lideranças locais, o presidente nomeado conseguiu depor a junta revolucionária sem conflito armado. Depois da proclamação da Confederação no Recife, o Pará manteve uma postura dúbia, influenciada pela situação no Maranhão. Quando São Luís foi controlada pela esquadra imperial, o Pará colocou-se expressamente contra a Confederação. Nos anos seguintes a acusação de simpatia ao republicanismo confederado foi instrumentalizada pelos agentes políticos locais contra seus adversários nas disputas de poder.
Piauí
Durante o processo de Independência, surgiram dois grupos políticos antagônicos no Piauí. Na vila litorânea de Parnaíba, a liderança política era Simplício Dias da Silva, grande proprietário inclinado às ideias revolucionárias pernambucanas. Com ele se alinhava o juiz de fora João Cândido de Deus e Silva. Por outro lado, com maiores vínculos com o Rio de Janeiro e tomando como base a capital da província, Oeiras, estava Manuel de Souza Martins, que presidia a junta de governo. Assim como ocorreu em outras províncias, o golpe contra a Assembleia Constituinte em novembro de 1823 acirrou as disputas políticas locais. Os ecos dos acontecimentos ocorridos no Ceará como reação ao fechamento da Assembleia repercutiram no Piauí, colocando a junta de governo da província numa postura defensiva. Os dois grandes bastiões rebeldes no Piauí foram as vilas de Parnaíba e Campo Maior. Em Marvão (atual Castelo do Piauí) e Jerumenha, também houve rumores de insurgência com a chegada de emissários enviados do Ceará. Na vila de Parnaíba, houve expressa resistência ao texto constitucional imposto pelo imperador. Apesar do levante nas referidas vilas, Manuel de Souza Martins só tomou medidas repressivas concretas após a chegada das notícias do fracasso do movimento em Pernambuco. Tropas foram enviadas para Parnaíba e Campo Maior e as câmaras das duas vilas juraram a Constituição outorgada pelo imperador. Importante salientar que em território piauiense faleceu Bárbara de Alencar, em 1832, na fazenda Alecrim (município de Fronteiras). Nascida em Exu, Pernambuco, foi líder política com destacada atuação nos movimentos de 1817 e 1824 na região do Crato, no Ceará. A repressão à Confederação do Equador no Piauí foi diretamente conduzida por Manuel de Souza Martins, agraciado posteriormente com o título de barão de Parnaíba.
Rio Grande do Norte
A província do Rio Grande do Norte passou por instabilidades políticas após a Revolução do Porto, contando com 3 juntas de governos que se sucederam na gestão local. Tomás de Araújo Pereira foi nomeado presidente da província pelo imperador em novembro de 1823, mas só tomou posse em Natal em 5 de maio de 1824. Naquele período, a ebulição política já era grande em Pernambuco, Ceará e Paraíba. As notícias históricas sobre o grau de envolvimento do presidente do Rio Grande do Norte na onda revolucionária são inconclusivas. Entretanto, foram enviados representantes de Natal ao Recife que formalizaram a adesão da província à Confederação em 3 de agosto de 1824. Aliados do imperador e simpáticos à Confederação desconfiavam de Tomás de Araújo, que acabou renunciando e fugindo da capital em 8 de setembro de 1824. O presidente da Câmara de Natal assumiu o governo da província e iniciou a repressão aos adeptos da revolução. A perseguição aos revolucionários deixou marcas na política local que ainda se faziam sentir uma década depois dos fatos ocorridos. Há indícios de que uma prensa foi enviada do Recife para Natal, mas, se isso ocorreu, o equipamento parece não ter sido usado. Semelhante estratégia foi posta em prática no Ceará, com um grande impacto.
Bahia
Após o fechamento da Constituinte, os deputados baianos voltaram para Salvador, trazendo a notícia do golpe e das prisões, provocando uma explosão de violência popular contra os portugueses. A guerra de Independência terminara em julho de 1823, de modo que ainda havia muitas tropas leais a Pedro I na cidade. Mesmo assim, durante o "mata-marotos" provocado pela notícia do golpe, muitas lojas foram depredadas e cidadãos portugueses foram surrados. Frei Caneca contou que, após a chegada da notícia do golpe contra a Assembleia Constituinte, a Câmara de Salvador reuniu-se, em 13 de dezembro de 1823 e rompeu com o Império do Brasil. Depois do “mata-marotos”, todavia, se arrependeram e voltaram atrás. Após a ata daquela reunião ser totalmente rasurada, uma outra foi lavrada com protestos moderados. A ata rasurada de fato existe, confirmando a narrativa de Frei Caneca. A manutenção da adesão da Bahia a Pedro I foi fundamental para que o Rio de Janeiro conseguisse subjugar as províncias rebeladas.