Ceará

Fortaleza antiga. Prospecto Vila de Nossa Senhora da Assunção ou Porto do Ceará. Atribuído a Francisco Antônio Marques Giraldes. 1811.
Acervo Digital de Fortaleza. (acervo.fortaleza.ce.gov.br)

A Independência no Ceará envolveu uma guerra sangrenta. O interior da província tinha ligações antigas com o litoral leste do Brasil, através das rotas do gado que alcançavam os sertões de Pernambuco e Bahia. O litoral do Ceará, todavia, tinha um comércio bilateral consolidado com Portugal. Ao autorizar as eleições de juntas locais de governo, a Revolução do Porto provocou uma intensa mobilização política nas províncias. Esse processo foi acirrado no Ceará, onde havia tanto aqueles que defendiam a manutenção dos laços com as cortes constitucionais de Lisboa, como veteranos de 1817, agora anistiados, como era o caso de Bárbara de Alencar e seus filhos que preferiam romper esses vínculos. A adesão do Ceará ao império do Brasil só foi possível mediante a promessa de se fazer uma monarquia constitucional que, de uma certa forma, conciliava as diferentes facções que assim poderiam disputar legitimamente o poder e se fazerem representar na Assembleia Constituinte.

Assim que chegaram as notícias do golpe de 12 de novembro de 1823, que destituiu a Assembleia Constituinte, começaram os protestos contra Pedro I no Ceará. Vale a pena salientar que a deputação cearense contribuiu também para a agitação em Pernambuco, pois eles pararam no Recife antes de seguir viagem 

Dali em diante, o movimento de protesto contra o golpe de Estado espalhou-se rapidamente pelo interior. Em 9 de janeiro de 1824, a Câmara de Quixeramobim antecipou-se e proclamou a República. Em fevereiro, a Câmara de Aracati propôs a formação de um “Governo Salvador”, sediado no Recife, para administrar o território de Alagoas ao Ceará. O presidente da província nomeado por Pedro I foi deposto, assumindo o governo o militar e filho de Bárbara de Alencar, Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, veterano de 1817 e herói da guerra de Independência no Piauí. 

Também aderiram ao movimento constitucionalista, o capitão-mor José Pereira Filgueiras e o padre Mororó. O movimento cresceu, mas a oposição favorável ao imperador também havia se fortalecido nas guerras de Independência e logo começaram os combates. 

Os revolucionários receberam uma prensa enviada pelo governo de Pernambuco. A partir de 1 de abril de 1824 começou a circular o Diário do Governo do Ceará, que difundia as notícias e o ideário do movimento, sob a liderança do redator, o padre Mororó. Assim como ocorreu em Pernambuco, as populações indígenas não ficaram passivas diante dos acontecimentos e se engajaram nos combates, ora de um lado, ora do outro, conforme os seus interesses comunitários. Em julho de 1824 o Ceará estava em plena ebulição revolucionária. Várias câmaras se negaram a jurar a Constituição imposta depois do golpe de novembro de 1823.

Em 26 de agosto de 1824, um Grande Conselho reuniu-se em Fortaleza e proclamou a república, aderindo à Confederação do Equador. Foi eleito presidente, Tristão Gonçalves de Alencar, um dos filhos de Bárbara de Alencar, um militar experimentado, herói das guerras de Independência no Piauí e Maranhão, quando as forças favoráveis à manutenção dos vínculos com Portugal foram derrotadas. 

Mas a contrarrevolução agiu rapidamente. Àquela altura, Dom Pedro era o único protagonista do jogo que contava com uma esquadra e recursos para pagar soldados em qualquer lugar. Em 13 de outubro a frota imperial chegou à capital cearense, desembarcando tropas bem armadas que se juntaram aos apoiadores de Pedro I já mobilizados. Dias depois, 150 homens das forças republicanas foram massacrados na Fazenda Picada, depois de intensos combates. Tristão Gonçalves de Alencar terminou sendo brutalmente assassinado e José Pereira Filgueiras rendeu-se no Crato.

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