Pernambuco

Vista da Alfândega de Pernambuco e do rio Capibaribe. Recife. Cartão postal. Década de 1900. Produzido pela Casa Ramiro M. Costa & Filhos. Coleção José Luiz Mota Menezes.

A notícia do golpe de novembro de 1823 chegou ao Recife em 13 de dezembro, junto com os deputados que representavam a província na Assembleia Constituinte. Indignados com o golpe, e apoiados por militares que lutaram na Guerra de Independência da Bahia, a oposição ao imperador conseguiu forçar a renúncia da Junta de Governo presidida por Francisco Paes Barreto, o morgado do Cabo, que apoiava Pedro I. Uma nova junta foi então eleita, presidida por um ex-rebelde de 1817, Manuel de Carvalho, que inclusive chegou a ser preso pela Junta anterior. Como secretário de governo foi eleito outro veterano da república de 1817, o poeta e bacharel José da Natividade Saldanha. 

A eleição desse novo governo contrariava o decreto do imperador, de 20 de outubro de 1823 que atribuía ao próprio monarca o poder de nomear e depor os presidentes de província e reduzia as juntas de governo a meros conselhos. Para tensionar ainda mais a situação, Manuel de Carvalho era amplamente reconhecido como proselitista do sistema republicano. Pedro I não aceitou essa eleição. No final de novembro de 1823 ele já havia nomeado Francisco Paes Barreto, seu aliado em Pernambuco, como presidente da província. Paes Barreto também fora rebelde em 1817, mas tornou-se um áulico no processo de Independência e iria liderar a oposição local a Manuel de Carvalho.

Em 8 de janeiro de 1824 o colégio eleitoral da província confirmou a eleição de Manuel de Carvalho e de Natividade Saldanha, mesmo já sendo conhecida em Pernambuco a nomeação de Paes Barreto. Em fevereiro diversas câmaras da província se negaram a dar posse ao nomeado por Pedro I. Ao problema da contenda pela presidência da província juntou-se o posicionamento da província contra o juramento da Constituição, ordenado pelo monarca em 25 de março. Sem condições de enfrentar o apoio de Manuel de Carvalho no Recife e Olinda, Francisco Paes Barreto se entrincheirou na província de Alagoas, onde começou a reunir forças contrarrevolucionárias. Em abril chegaram as embarcações da Marinha imperial para bloquear o porto do Recife. Comandadas pelo mercenário britânico John Taylor, as forças enviadas do Rio de Janeiro tinham por objetivo forçar o juramento da Constituição imposta e dar posse a Francisco Paes Barreto. Mais uma vez as câmaras reunidas em Grande Conselho se negaram a obedecer.

Ainda em abril, o governo de Manuel de Carvalho enviou uma missão para tentar dialogar com Dom Pedro, que recusou aceitar o eleito em Pernambuco e nomeou um tertius, o mineiro José Carlos Mayrinck da Silva Ferrão, que residia no Recife desde 1806. Informado da nomeação, Mayrinck se negou a tomar posse, mesmo sendo repetidas vezes convocado por Manuel de Carvalho. Sucederam-se semanas de apreensão no Recife. Em 1​º de maio Manuel de Carvalho publicou manifesto defendendo as virtudes do sistema constitucional. Ao longo do mês chegaram as notícias dos acontecimentos em curso na Paraíba e no Ceará. 

Em junho, diante de boatos de uma invasão portuguesa, Pedro I ordenou que os navios que bloqueavam o Recife partissem para reforçar a defesa do Rio de Janeiro. Sentindo-se mais uma vez traídos, os pernambucanos proclamaram a Confederação do Equador em 2 de julho, convocando as demais províncias do Brasil a aderir à nova república. Uma Assembleia Constituinte foi também convocada a partir de uma proposta escrita por Frei Caneca. No dia seguinte à Proclamação da República, provavelmente por sugestão de Natividade Saldanha, o governo proibiu o tráfico atlântico de escravizados para os portos da província. 

Essa foi uma medida de imensa radicalidade no contexto político da época, pois o tráfico atlântico de escravizados havia se expandido muito no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, a partir do período joanino. No caso de Pernambuco, o apogeu histórico do tráfico entre o século XVI e o seu ocaso nos anos 1850, são os anos entre 1810 e 1822, quando quase 110 mil africanos escravizados chegaram no Recife. A suspensão do tráfico certamente alienou de vez qualquer apoio que a república poderia ter dos protagonistas desse lucrativo ramo mercantil.

O governo da Confederação tentou atacar as forças de Francisco Paes Barreto em Alagoas por terra e por mar, sem sucesso. As embarcações enviadas acabaram sendo apreendidas pelos aliados de Pedro I. Em agosto, uma segunda esquadra da marinha imperial deslocou-se para Pernambuco, desembarcando em Alagoas tropas comandadas pelo brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Novamente o porto do Recife foi bloqueado. Um dos episódios mais impressionantes do bloqueio naval ao Recife foi o bombardeio do seu bairro portuário, ordenado pelo comandante da esquadra imperial, o mercenário inglês Thomas Cochrane, na madrugada do dia 28 de agosto de 1824. Contrariado pela recusa do governo republicano de Pernambuco em se render, Cochrane não hesitou em disparar os canhões de suas embarcações contra a cidade provocando somente danos materiais, pois os habitantes da zona próxima aos ancoradouros já haviam abandonado as casas e lojas por temerem um ataque da frota imperial. O episódio, todavia, causou muita indignação pois o alvo da marinha era uma cidade brasileira e não um inimigo externo. Em paralelo, as tropas imperiais desembarcadas em Alagoas, e seus aliados, marcharam em direção ao Recife e Olinda. Após intensos combates na localidade de Afogados e nos bairros centrais do Recife, as fortalezas foram rendidas e a Câmara da capital, Olinda, capitulou em 17 de setembro. 

Cerca de 3.000 pessoas se retiraram de Pernambuco, entre elas frei Caneca, Mundrucu, João Soares Lisboa e Agostinho Bezerra. No dia 21 de setembro, as forças pernambucanas e paraibanas reuniram-se em um Grande Conselho no Engenho Poço Comprido (Vicência, PE). Decidiu-se então que só haveria rendição se a Assembleia Constituinte fosse reconvocada para um lugar distante da corte imperial. Ademais, as tropas imperiais deveriam evacuar o Recife. O presidente confederado da Paraíba, Félix Antônio Ferreira de Albuquerque, assumiu o comando geral das tropas que rumaram em direção ao sertão do Ceará. Havia ainda a esperança de reorganizar as forças remanescentes de todas as províncias confederadas para um ataque ao Recife. No entanto, no Ceará, a contrarrevolução triunfou em outubro com as prisões e os assassinatos das principais lideranças. 

Em 29 de novembro, nas proximidades de Missão Velha (CE), ocorreu a rendição final.

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