Sumário
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Estudo Exploratório de Violência contra as Mulheres Trans e Travestis

Considerações iniciais

O Instituto de Pesquisa DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, realiza desde 2005 a pesquisa sobre violência contra a mulher. Esta é a segunda edição em que o levantamento contempla, de forma específica, mulheres trans e travestis 1 . O presente relatório constitui um recorte dessa pesquisa e apresenta achados exploratórios sobre mulheres trans e travestis identificadas no levantamento geral da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher.

O início das discussões sobre a inclusão desse grupo ocorreu em 2015, a partir de demandas de organizações sociais ligadas ao tema, e sua participação foi inserida pela primeira vez em 2023, como parte do esforço de inclusão de todas as mulheres nessa pesquisa, conduzida bianualmente há duas décadas (DataSenado, 2024).

Na edição anterior, a pesquisa identificou e entrevistou 21 mulheres trans e travestis em um primeiro esforço institucional de escuta desse grupo no âmbito da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. Aquele levantamento teve caráter exploratório e qualitativo, tanto pelo número reduzido de entrevistadas quanto pela ausência de dados populacionais oficiais que permitissem a realização de inferências estatisticamente válidas. Ainda assim, os resultados já evidenciavam aspectos relevantes das vivências dessas mulheres, como a percepção de desrespeito, a ocorrência de violência doméstica e familiar, a baixa confiança na denúncia e barreiras de acesso à proteção, oferecendo subsídios importantes para o aperfeiçoamento da rodada atual, realizada em 2025.

A forma de perguntar sobre identidade de gênero foi modificada em relação à primeira pesquisa, após análise dos áudios, na qual se percebeu dificuldade de entendimento sobre o tema e desconforto quando a mulher era questionada. O planejamento da pesquisa de 2025 levou isso em consideração e, após reuniões com entidades especialistas no tema (Antra, Gênero e Número, Instituto Matizes, Instituto Patrícia Galvão e Vote LGBT), foram discutidas modificações para o levantamento de 2025.Em parceria com o Comitê pela Promoção da Igualdade de Gênero e Raça do Senado Federal, que contou com a participação de servidoras trans, as questões específicas foram reformuladas com o intuito de proporcionar maior segurança na participação e adequar a linguagem ao público de interesse.

A pergunta inicial foi: “Apenas para registro: estou falando com um homem ou com uma mulher?”. Após o questionário geral, para participar do bloco das mulheres trans, o texto passou a ser mais explicativo: “Agora tenho algumas perguntas só para mulheres trans, ou seja, mulheres que foram identificadas como homem ao nascer”.

Dessa forma, as vivências dessas mulheres foram captadas em um total de 11 perguntas específicas, que trataram de violências e de busca de ajuda ou proteção. Também foi incluída uma pergunta aberta sobre a vivência das respondentes relacionada à sua transsexualidade. Entre 16.5 e 8.7.2025, 43 mulheres responderam a esse bloco de vivências.

Como foi feita a pesquisa

O desenho amostral de 2025 seguiu o mesmo princípio da pesquisa de 2023: as mulheres trans e travestis foram identificadas no âmbito da pesquisa telefônica sobre violência contra a mulher. Em razão da ausência de parâmetros populacionais oficiais sobre essa população, os resultados não são expandidos para o conjunto de mulheres trans e travestis no Brasil; trata-se de achados exploratórios sobre o grupo entrevistado.

A sequência de perguntas para se chegar ao bloco trans iniciava-se com a formulação “Apenas para registro, estou falando com homem ou mulher?”. Após o bloco de percepção e vivência de violências contra as mulheres, apresentava-se a especificação sobre identidade de gênero: “Agora tenho algumas perguntas só para mulheres trans, ou seja, mulheres que foram identificadas como homem ao nascer. Você se encaixa nesse grupo?”. Em alguns casos, houve dúvidas de compreensão sobre a pergunta, o que exigiu a auditoria de 100% dos áudios pela equipe da pesquisa. Os casos duvidosos foram submetidos a nova audição com pessoas LGBTQIA+ convidadas para a avaliação final, que concluiu que 43 mulheres eram de identidade trans ou travesti. O bloco a seguir ilustra esse processo.

Embora o número de respondentes tenha aumentado de 21 para 43, permanece a limitação quanto à realização de inferências estatisticamente válidas, em razão da ausência de dados censitários sobre essa população específica. O país ainda carece de informações demográficas consistentes sobre mulheres trans e travestis, o que restringe análises com maior precisão estatística. Há, contudo, expectativa de divulgação futura de pesquisas voltadas a esse grupo, o que poderá contribuir para uma compreensão mais precisa de aspectos relevantes de suas vivências.

Em relação à pesquisa anterior, houve mudanças na investigação das vivências específicas de mulheres trans, com destaque para a percepção de segurança ao frequentar espaços públicos e ao usar serviços públicos. Houve também a inclusão de situações concretas de violência, de forma a evidenciar o eventual não reconhecimento de violências sofridas.

A distribuição por Unidades da Federação (UF) das entrevistadas é mostrada na Tabela a seguir. Sete estados não tiveram entrevistadas: Acre, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins.

Tabela 69: "Unidade da Federação" - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Alagoas

2

5%

Amapá

1

2%

Amazonas

1

2%

Bahia

1

2%

Ceará

3

7%

Distrito Federal

1

2%

Goiás

3

7%

Maranhão

1

2%

Mato Grosso

5

12%

Mato Grosso do Sul

3

7%

Minas Gerais

1

2%

Pará

4

9%

Paraíba

4

9%

Paraná

1

2%

Pernambuco

1

2%

Piauí

4

9%

Rio Grande do Sul

2

5%

Rondônia

1

2%

Roraima

1

2%

São Paulo

3

7%

Total

43

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.
Nota: Soma dos percentuais difere de 100% devido ao arredondamento.

Percepção da violência

A violência contra mulheres trans é amplamente divulgada, principalmente por organizações sociais com foco na temática, que contribuem para a criação de políticas públicas e legislação específica, mas ainda enfrenta desafios estruturais que atingem diretamente mulheres trans e travestis, incluindo violência letal, insegurança, exploração sexual, dificuldades no acesso à educação, ao emprego e à renda, à proteção social e ao acesso à justiça (Antra, 2026). Essa realidade também aparece na forma como as respondentes percebem seu cotidiano, marcado por discriminação, constrangimento, insegurança e restrições de acesso associadas ao fato de serem mulheres trans ou travestis.

’“Minha cidade é muito conservadora, […], na mente deles, eles acham que mulheres trans não podem circular em vias públicas, não podem frequentar espaços familiares, tipo cinemas, shopping, essas coisas. Então, sempre acontecem essas perseguições, sabe? Tipo, igual, entro num shopping, vem um segurança por trás, bem discretamente, pra ver o que você vai fazer, onde você vai entrar, ou se você entra numa loja, os olhares mudam, como se a gente fosse roubar ou fazer alguma zona naquele lugar, sabe?” (Paraná, 16 a 29 anos)

Ao serem questionadas sobre como as mulheres são tratadas, de forma geral, 47% entendem que não, 67% responderam que a violência doméstica ou familiar aumentou e 72% acreditam que o Brasil é um país muito machista, conforme as tabelas a seguir.

Tabela 2: "Onde você acha que as mulheres são menos respeitadas?" - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Na rua

20

47%

Na família

11

26%

No trabalho

7

16%

Outro ambiente

4

9%

Não são desrespeitadas

1

2%

Não sei/Prefiro não responder

0

0%

Total

43

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.

Tabela 3: "Na sua opinião, nos últimos doze meses, a violência doméstica e familiar contra as mulheres:" - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Aumentou

29

67%

Permaneceu igual

8

19%

Diminuiu

6

14%

Não sei/Prefiro não responder

0

0%

Total

43

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.

Tabela 4: "De forma geral, você considera o Brasil um país:" - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Nada machista

1

2%

Pouco machista

10

23%

Muito machista

31

72%

Não sei/Prefiro não responder

1

2%

Total

43

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.
Nota: Soma dos percentuais difere de 100% devido ao arredondamento.

Violências vividas

Dos 43 casos de mulheres trans e travestis entrevistadas, 20 relataram ter sofrido violência doméstica ou familiar, o que corresponde a 47% desse grupo, além de 24 participantes (56%) que vivenciaram situações compatíveis com violência nos últimos 12 meses. As violências mais frequentes foram psicológica (95%), física (80%) e moral (80%), frequentemente praticadas por marido, companheiro ou namorado (50%), em contextos marcados por conflitos relacionais, como ciúmes (60%) ou inconformismo com o término (50%). Além disso, 40% relataram agressões verbais associadas diretamente ao fato de serem trans, evidenciando a centralidade da identidade de gênero nas experiências de violência.

Essas vivências impactam diretamente o cotidiano dessas mulheres, produzindo sentimentos de insegurança, vigilância constante e restrições à circulação em espaços públicos, além de dificuldades no acesso a serviços e no convívio social. Parte dessas situações decorre de violências associadas à transfobia, que se manifesta não apenas em agressões explícitas, mas também em constrangimentos, discriminações institucionais, mau atendimento em órgãos públicos e exclusão simbólica, frequentemente naturalizados como experiências recorrentes. Nesse contexto, a transfobia atua como eixo estruturante das violências relatadas, intensificando sua frequência e seus efeitos sobre a vida cotidiana das respondentes.

Ainda que haja oscilações anuais nos registros, o fato de o Brasil seguir figurando como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo (Rodrigues, 2026) reforça a importância de pesquisas sobre violências contra esse grupo. Nesse contexto, os resultados desta pesquisa devem ser lidos como parte de uma estrutura mais ampla de violências, que inclui desde agressões letais até constrangimentos cotidianos, barreiras de acesso a serviços e restrições ao direito de circulação e pertencimento.

Algumas das participantes ilustraram essa realidade por meio de relatos que evidenciam a recorrência e a naturalização dessas experiências.

Nos últimos 12 meses, cerca de 54% das respondentes relataram desconforto ao estar em espaços públicos e 38% indicaram ter sido mal atendidas em órgãos públicos. Os relatos sugerem que essas experiências são percebidas como frequentes em seu cotidiano, reforçando um sentimento de vigilância, exposição e insegurança. Algumas das participantes ilustraram essa realidade:

Entrevistadora: “Foi mal atendida em órgãos públicos?” Entrevistada: “Sempre acontece, né, amiga? Isso é normal, sim.” (São Paulo, 16 a 29 anos);

Entrevistadora: “Insultou você, sim ou não?” Entrevistada: “Isso é comum, né?” (Pará, 30 a 39 anos);

“[…] estamos num país com muito preconceito, e o machismo e a transfobia ainda comandam, mas a gente sempre está à procura de uma luta para mostrar ser quem nós somos realmente” (Roraima, 16 a 29 anos);

“[…] mas o preconceito existe de várias formas, né? E a gente carrega um pouco a mais, né?” (Rondônia, 50 a 59 anos);

“[…] nós, mulheres trans, sofremos muito por questões do patriarcado, do machismo e da misoginia; ainda mais porque a transfobia está meio que imposta no país” (Paraíba, 16 a 29 anos).

Nos últimos 12 meses, 24 participantes, ou 56%, relataram situações compatíveis com violência, mas apenas 4 reconheceram explicitamente ter sofrido violência. Essas situações podem ser agrupadas em:

  • Violência psicológica, moral e institucional;
  • Agressões verbais (xingamentos, insultos, humilhações) — relatadas por cerca de 40%;
  • Mau atendimento ou tratamento discriminatório em órgãos públicos;
  • Constrangimentos sociais recorrentes, como olhares hostis ou tratamento desigual em espaços públicos;
  • Sensação de vigilância e suspeição, por exemplo, ser seguida por seguranças em lojas;
  • Restrições ao uso e circulação em espaços públicos, incluindo a percepção de que não são bem-vindas.

Tabela 28: "Você sofreu violência nos últimos 12 meses? Vivenciou nos últimos 12 meses? (4 categorias)" - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Declarou

4

9%

Não sofreu nem vivenciou

19

44%

Não declarou, mas vivenciou

20

47%

Não sei/Prefiro não responder

0

0%

Total

43

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.

Esse descompasso sugere que parte das agressões é naturalizada ou vivida como componente recorrente do cotidiano, sobretudo quando se trata de violência psicológica, moral, transfóbica, institucional ou familiar.

Ao se observar especificamente a violência doméstica ou familiar, 77% das entrevistadas afirmaram conhecer alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência, e 47% relataram que elas mesmas sofreram. Este último percentual corresponde a 20 mulheres trans, das 43 identificadas.

Entre as 20 entrevistadas, 95% sofreram violência psicológica, 80% física e 80% moral, ocasionadas, principalmente, pelo marido/companheiro ou namorado da época (50%). Os estados do agressor no momento da agressão predominantes foram, principalmente: ciúmes (60%) e inconformismo com o término ou com a tentativa de término do relacionamento (50%).

Além da violência doméstica ou familiar, as situações investigadas também captaram outras formas de violência e discriminação. Das 43 mulheres trans entrevistadas, 40% afirmaram ter sido agredidas verbalmente em razão de serem trans.

A violência não se limita a episódios formalmente tipificados como agressão; ela também se expressa como vigilância social, constrangimento, insegurança cotidiana e restrição subjetiva do direito de presença em espaços compartilhados, como relata uma das respondentes:

“acham que mulheres trans não podem frequentar áreas públicas… vem segurança por trás em loja… os olhares mudam como se fosse roubar” (Paraná, 16 a 29 anos).

Há também violência relatada em outra dimensão da vida social, captada nas perguntas abertas, relacionada à inserção no mercado de trabalho. A mesma entrevistada afirmou: “tenho 3 formações, chego pra fazer entrevista vejo o olhar do entrevistador que não vai me chamar”. O relato sugere que a discriminação opera já nas etapas iniciais da busca por emprego, convertendo qualificação em frustração e exclusão. Esse achado dialoga com o perfil das respondentes, em que 49% não estavam ocupadas no momento da entrevista, e com evidências recentes de que pessoas trans enfrentam barreiras recorrentes de acesso e permanência no mercado formal de trabalho no Brasil. A distribuição de renda das respondentes é mostrada no Gráfico a seguir.

Tabela 74: "Situação no mercado de trabalho" - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Ocupado

22

51%

Fora da força de trabalho

18

42%

Desocupado

3

7%

Total

43

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.

A agressão verbal aparece como o segundo tipo mais frequente de violência relatado pelas respondentes, mencionada por 40% delas. Esse dado evidencia que a violência contra mulheres trans e travestis não se manifesta apenas em formas físicas ou extremas, mas também por meio de ofensas, humilhações, xingamentos e outras práticas discursivas que reafirmam sua deslegitimação social. Embora por vezes seja naturalizada ou tratada como menos grave, a agressão verbal produz efeitos profundos, pois compromete a autoestima, intensifica o sentimento de insegurança e reforça a exclusão em espaços públicos e privados.

Foi agredida verbalmente? “Geralmente sim, né? Não vamos falar que não, porque é mentira”. (São Paulo, 16 a 29 anos)

Foi agredida verbalmente? “Vixi… Sempre”. (Goiás, 16 a 29 anos)

Foi agredida verbalmente? “Às vezes, né? Porque as pessoas não nos compreendem”. (Pará, 40 a 49 anos)

Todas as situações de violência estudadas são passíveis de proteção pelo poder público. Ainda assim, das 32 mulheres que responderam “sim” a pelo menos uma dessas situações (Gráfico 77), apenas 3 procuraram algum serviço de proteção (Tabela 60).

Os achados sugerem a hipótese de que a baixa procura por serviços pode estar relacionada à baixa confiança nas instituições e ao receio de novas situações de constrangimento. Cerca de 38% das respondentes indicaram mau atendimento em órgãos públicos e 27% em serviços de saúde. Buscar apoio e ajuda em situações de violência requer confiança em quem irá prestar esse auxílio. Nessa direção, Ferreira (2019) aponta que pessoas trans e travestis são frequentemente capturadas por processos de seletividade penal e sujeição criminal. Esse quadro ajuda a compreender por que, mesmo diante de situações em que são vítimas de violência, o recurso às instituições públicas pode não ser percebido como um caminho seguro ou efetivo.

Foi mal atendida em órgãos públicos? “Sempre acontece, né, amiga? Isso é normal, sim”. (São Paulo, 16 a 29 anos)

Foi mal atendida em algum órgão público, sim ou não? “Fui sim, fui péssimo atendida”. (Ceará, 16 a 29 anos)

Nos serviços de saúde, a situação é semelhante: a procura por atendimento também depende da confiança de que o serviço será um espaço de cuidado, e não de nova exposição à violência. Pinheiro et al. (2024), em estudo qualitativo com 52 mulheres trans e travestis, mostram que a transfobia nos serviços de saúde aparece em situações cotidianas, como olhares de estranhamento, piadas, constrangimentos corporais, demora injustificada no atendimento, desrespeito ao nome social/retificado e tratamento baseado no sexo registrado ao nascimento. Esses episódios não apenas produzem sofrimento, mas funcionam como barreiras concretas à busca, à permanência nos serviços e à continuidade do cuidado.

Foi mal atendida em serviços de saúde? “Só por eu falar meu nome de mulher, né? E ele falava meu nome de homem e eu pedindo pra falar meu nome de mulher e não queriam me atender como mulher”. (Distrito Federal, 16 29 anos)

Comentário experiência como mulher transgênero em relação à violência contra as mulheres: “Eu acredito que a segregação, tanto racial quanto sexual, ela interfere no meio de como eu sou tratada em âmbitos como; profissional, educacional ou até mesmo em lugares aonde eu tento acessar por meio de saúde pública. Contribuem de forma severa para a minha exclusão, me empurrando para a margem da sociedade.” (Bahia, 16 29 anos)

Embora predomine, entre as respondentes, o relato de vivências marcadas por violência, constrangimento e barreiras institucionais, também houve menção a experiências distintas. Uma entrevistada afirmou: “Menina, eu nunca passei por violência, é bem tranquilo onde eu moro.” (Mato Grosso do Sul, 50 a 59 anos). Esse relato indica que as experiências de mulheres trans e travestis não são homogêneas e podem variar conforme o contexto local, a faixa etária, as redes de sociabilidade e as condições concretas de inserção social. Ainda assim, sua presença no conjunto dos depoimentos não altera o quadro geral identificado pela pesquisa, marcado por ampla exposição a diferentes formas de violência e discriminação.

Tabela 60: "E você procurou algum serviço de proteção à mulher por causa de alguma dessas situações?"* - População feminina trans - Brasil - Pesquisa externa - 2025

Número de respondentes

Percentual

Sim

3

9%

Não

28

88%

Não sei/Prefiro não responder

1

3%

Total

32

100%

Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado - coleta de 16.5 a 8.7.2025.
Nota: *Questão respondida por quem já passou por alguma das situações listadas nos últimos 12 meses.

Perfil das respondentes

Entre as 43 entrevistadas, predominam mulheres pretas, pardas ou indígenas (70%), sem religião ou com outra religião não mencionada (58%), com idade entre 16 e 29 anos (47%), escolaridade até o ensino médio completo (65%), sem deficiência (81%) e residentes em áreas urbanas (67%). Além disso, 56% possuem renda familiar inferior a R$3.036,01, e 70% afirmam conseguir se sustentar com seu próprio dinheiro. Em relação à situação no mercado de trabalho, cerca de 51% estão ocupadas, enquanto 42% se encontram fora da força de trabalho.

Das 43 mulheres trans entrevistadas, 72% consideram o Brasil um país machista, e 47% acreditam que as mulheres são menos respeitadas nas ruas. Os relatos coletados, ainda, acrescentam um problema pelo qual as mulheres, em geral, não passam: a transfobia.

Perspectivas finais

Os resultados apresentados neste relatório têm caráter exploratório. Esse não é o cenário ideal para a produção de conhecimento sobre mulheres trans e travestis no Brasil, mas é o possível diante das limitações atuais, sobretudo da ausência de parâmetros populacionais oficiais.

Ainda assim, explicitar esse caráter exploratório não reduz a importância da pesquisa. Ao contrário, reforça o compromisso institucional de buscar caminhos metodológicos capazes de produzir conhecimento mais qualificado sobre um grupo historicamente pouco contemplado nas estatísticas públicas.

A produção de dados sobre mulheres trans e travestis é, por isso, uma necessidade importante. A escassez de informações demográficas, sociais e econômicas sobre esse grupo limita pesquisas, dificulta a formulação de políticas públicas e contribui para a permanência de sua invisibilidade no plano institucional.

Os achados também reforçam a necessidade de qualificar os serviços públicos. Os relatos de mau atendimento em órgãos públicos e serviços de saúde, somados à baixa procura por serviços de proteção, sugerem que o acesso formal aos direitos nem sempre se converte em acolhimento efetivo.

Por fim, é importante não invisibilizar as experiências relatadas. O registro das falas das entrevistadas permite reconhecer que, por trás dos percentuais e tabelas, há vivências concretas de violência, discriminação e resistência, o que reforça a importância da luta por igualdade de gênero e por uma vida melhor em sociedade:

“Não só as mulheres trans, mas também as mulheres cis, devem estar sempre unidas na luta, na defesa dos nossos direitos, contra a violência, contra o machismo, a misoginia e, enfim, que tenhamos forças para resistir a tudo o que está por vir, a tudo o que está aí. A luta é grande. A luta tem que ser pelo coletivo. Todas as mulheres, independentemente da orientação, sejam cis ou trans, temos que estar muito unidas. Porque a violência não faz distinção.” (Ceará, 40 a 49 anos)

“Eu acho que as pessoas ainda precisam entender que o fato de ser uma mulher trans, um homem trans ou homossexual, seja lá o que for, qual seja a orientação ou a identidade de gênero, não muda que são pessoas, né? São pagadoras de impostos, são trabalhadoras, são pessoas que vivem em sociedade normalmente. E, se forem respeitadas, […] a vida em sociedade vai ficar bem melhor.” (Rio Grande do Sul, 50 a 59 anos)

Referências

Notas de rodapé

  1. Mulher transgênero é a pessoa que nasceu e passou parte da sua vida sendo identificada como homem e tratada no masculino, em especial, por conta de sua composição corporal. Contudo, ela se identifica como mulher e gostaria de ser tratada e reconhecida no feminino.” (Comitê Permanente pela Promoção da Igualdade de Gênero e Raça do Senado Federal, 2023, p. 23). ↩︎